Eu vou de bicicleta – Histórias Inspiradoras

Com cidades cada vez mais preparadas para receber as duas rodas, ciclistas tomam conta das ruas brasileiras. O veículo já é usado por muitos como o meio de transporte principal, mas também é uma boa alternativa para quem quer ter uma opção ao carro

Nas recordações da infância, ela está lá. Primeiro com o auxílio das rodinhas e o apoio dos pais. Quando a segurança está fortalecida, sai uma rodinha, e o equilíbrio já fica mais difícil. Finalmente vem a independência – e pedal, para que te quero?

Não são poucas as pessoas que resolveram recordar o amor de infância pela bicicleta e hoje veem o que há tempos foi uma diversão como uma alternativa ao trânsito e ao transporte público. Pudera, o país anda a passos largos na construção de uma malha cicloviária para a população. Com 440 km, Brasília lidera o ranking. O Rio de Janeiro conta com 374 km, enquanto São Paulo soma 351,9 km até o momento – a meta é chegar aos 400 km até o final de 2015.

Para quem pensa em adotar a bicicleta como um meio de transporte, alguns cuidados são necessários. “Escolha uma bicicleta levando em consideração seu tipo de deslocamento. Tamanho, modelo, peso e preço são fatores importantes a serem considerados. Faça um “test ride” em vários modelos para ver qual se encaixa melhor no seu perfil e tire todas as suas dúvidas antes de escolher”, aconselha Missaki Idehara, coordenador nacional do Bike Anjo, um grupo de ciclistas voluntários que ajuda quem pretende se aventurar pelas ruas sobre duas rodas.

Aline Souza, produtora cultural, é uma mineira que mora no Rio de Janeiro há seis anos e adotou a bicicleta como meio de transporte. Ricardo Santos, empresário, descobriu que a bike pode ser uma aliada no deslocamento da cidade, sem dispensar o transporte público e o próprio carro. Conheça mais sobre essas histórias e confira dicas para pensar nessa alternativa.

Inspiração na infância

O carro já não ocupava a garagem da casa dos pais de Aline. Bicicletas da época, hoje chamadas de vintage, eram customizadas e transformadas em veículos personalizados e cheios de estilo. “Aprendi a pedalar com nove anos. O meu pai tinha um amor enorme por bicicletas, e meu sentimento já começou ali”, conta.

O curso de mestrado levou Aline ao Rio de Janeiro, onde ela descobriu que a paixão de criança poderia ser a utilidade daquele momento. Não demorou para ela tomar gosto pelo pedal, abraçar a causa e adotar uma posição política junto aos ativistas que lutavam por infraestrutura e segurança pelas ruas do Rio.

Por um tempo, a produtora cultural, que morava no bairro do Cosme Velho, pedalava por 15 km até a Glória, no centro da cidade. A bicicleta foi sua companheira por dois anos e meio, mas foi necessário um longo diálogo com o síndico do prédio da empresa, já que não havia bicicletário e nem sequer era permitido levar a “bici”, como ela chama, no elevador. “Eu entrava por um lado da estação de metrô ao lado e saía com a bicicleta dentro de uma bolsa que eu tive de comprar em Brasília. Só assim eu podia subir com a bicicleta no elevador, porque ele considerava uma bagagem”, conta.

Vale lembrar que se tratava de uma bicicleta dobrável, uma opção para quem pretende combinar com outros meios de transporte, como o metrô e o táxi. “Se você resolve ir para uma festa e bebe alguma coisa, você não vai voltar pedalando. Então você dobra a ‘bici’ e coloca no bagageiro de um táxi, por exemplo.”

Além de toda a facilidade de locomoção, Aline ainda lançou o Tweed Ride Rio, um passeio ciclístico temático que resgata a memória de um tempo em que a bicicleta era personagem principal. “São quatro passeios por ano, um por estação. Eu tenho uma bicicleta vintage, e também nos vestimos a caráter, para resgatar esse clima nostálgico”, conta.

Fora do passeio, Aline aprendeu a impor respeito no trânsito e conta que as fechadas e as buzinas diminuíram bastante. “Eu ocupo a faixa, sinalizo os meus movimentos e ando em uma velocidade compatível com a dos carros”, explica.

A vantagem ao chegar em casa é uma boa dose de endorfina e uma felicidade sem tamanho. “É muito mais fácil o sorriso do que quando você está preso no trânsito de alguma maneira, seja como motorista, seja como passageiro de um ônibus.”

Uma São Paulo frutífera

Mangueiras, goiabeiras e abacateiros dividem o espaço com o asfalto e o trânsito paulistanos. Se você está habituado com as ruas da cidade, talvez não tenha prestado atenção em um desses exemplares de árvores frutíferas. Será que você estava dentro de um carro? Pode ser por isso.

O empresário Ricardo Santos demorou para perceber o abacateiro que existe em frente ao Museu da Casa Brasileira, em plena Avenida Faria Lima, centro empresarial de São Paulo. Foi pedalando, ao levar os filhos para a escola, que a árvore teve todo um significado para as crianças. O resultado? Creme de abacate do fruto recém-colhido por Felipe, 6 anos, e Malu, 5.

Até o ano passado, a dupla ia para o colégio em uma grande bicicleta, que sustentava duas cadeirinhas e um pai orgulhoso em mostrar para os pequenos uma nova maneira de ver a cidade. “A convivência entre pai e filho nesse momento é demais”, conta.

Quem ouve o orgulhoso Ricardo contar a sua história de desbravamento da cidade sobre duas rodas não imagina como foi o início da jornada: “Em 2010 eu decidi trocar de carro. Depois da decepção com a avaliação da concessionária, de colocar as contas no papel, estabeleci que só andaria de táxi dali em diante”.

Com um escritório no bairro de Pinheiros, não demorou a chegar o dia em que olhou pela janela e refletiu: “Vou demorar duas horas e gastar 1 milhão de reais para chegar em casa”, brinca. Ele não pensou duas vezes. Pegou a bicicleta que decorava o seu escritório, já que ele trabalha com marketing esportivo, e saiu feliz da vida – pedalando pela calçada, andando na contramão e fazendo tudo errado.

Foi o sócio triatleta quem deu um empurrão para que ele entendesse a necessidade de uma bicicleta bacana, dos equipamentos de segurança necessários e para que ele deixasse de lado a peça de decoração. “Era uma bicicleta tosca, até tentei dar uma ajeitada para ficar com ela mesmo”, confessa.

Há cinco anos, São Paulo ainda não ostentava nem metade dos quilômetros de ciclovias que a cidade tem hoje. “A malha cicloviária só vai ser entendida daqui a algum tempo. Como não havia infraestrutura de segurança para o ciclista, existia uma demanda reprimida”, opina Ricardo, que acredita que São Paulo está absolutamente pronta para receber o ciclista.

Mais do que entoar o hino de que a bicicleta vai salvar o trânsito e a cidade (já que não é isso o que ele pensa), o empresário acredita que essa é mais uma alternativa para quem precisa se locomover pela cidade. “Eu não sou contra o carro, apenas entendi que ele não é funcional para todo o tempo. Nós continuamos tendo o carro da família, mas existem outras alternativas”, defende. Metrô, ônibus – e a conquista do bilhete único, que Ricardo achou uma grande independência – podem ser boas opções, assim como a bicicleta compartilhada, o táxi e, por que não, o carro. “O melhor mesmo é ter a liberdade para escolher.”

Pedalando com segurança

  • Exerça a direção defensiva 
  • Nunca pedale na contramão
  • Ocupe pelo menos um terço da faixa de rolamento
  • Cuidado com a abertura de portas dos carros parados
  • Respeite o que diz o Código de Trânsito
  • Tem medo de pedalar? Chame um Bike Anjo

Equipamentos de segurança

Pela legislação de trânsito, os equipamentos obrigatórios são retrovisor do lado direito, buzina, iluminação dianteira e traseira.

Também são recomendados capacete, luvas e garrafinha de água.

Não sabe pedalar?

  • Procure sempre a orientação de uma pessoa experiente
  • Tenha paciência, pois não se aprende tudo em um dia
  • Repita os exercícios sempre que puder
  • Entre em contato com o Bike Anjo e solicite ajuda de um voluntário


Artigo de autoria de Ana Sniesko originalmente publicada na Revista Vida Natural Ed. 56